quinta-feira, 23 de abril de 2009

A história do Vandir

Quando se deram conta, o Vandir já estava no topo da torre companhia de telefones e de lá ameaçava se jogar a qualquer momento. Começou a juntar gente. E quanto mais gente chegava mais o Vandir acenava e ameaçava saltar. Os bombeiros foram chamados e tiveram dificuldades para chegar ao local, tal era o número de curiosos que se aglomeravam em torno da imensa torre. E o Vandir lá em cima, ora soltando um pé, ora o outro, pronto para pular. Um bombeiro subiu a escada e quando se aproximou viu que o Vandir não estava pra brincadeira.
- Mais um degrau e eu embaixo! - gritou para todo mundo ouvir.
O Vandir estava transtornado. Babava nos cantos da boca e revirava os olhos feito maluco. O bombeiro tentou puxar assunto, mas ele se recusava a qualquer tipo de diálogo. Uma única frase parecia fazer parte do seu repertório naquele momento de grande tensão:
- É hoje que eu me arrebento!
Foram cinco horas de negociações e expectativa. Só que de uma hora para outra, o Vandir mudou o discurso:
- A não ser que a Fatinha me perdoe!
Não foi difícil localizar a Fatinha e trazê-la, rapidamente, ao local da iminente tragédia. A Fatinha vinha a ser a mulher do Vandir e, para surpresa geral, não ofereceu qualquer resistência ao magnânimo gesto de perdoar o marido, seja lá o que fosse o que ele tivesse aprontado.
Quem conhecia a Fatinha, no entanto, teria percebido que se tratava apenas de uma tática para pegar o Vandir com a calça na mão. Foi o marido botar o pé em terra firme e ela veio para cima, com tudo, sem perda de tempo:
- Que é que você aprontou dessa vez, Vandir?
Agora era o Vandir que passava a não entender mais nada:
- - disse ele, espantado. - Então não contaram nada pra você!?
Quando a Fatinha disse que não, a primeira reação do Vandir foi tentar voltar para a torre, mas já era tarde. O estado de espírito do Vandir, então, transitou da desolação à melancolia num curto espaço de tempo. Todo o esforço de cinco horas no topo da torre por nada. O problema maior não foi confessar ali, na frente de todo o mundo, o motivo que o levara a ameaçar se suicidar e a pedir o perdão da Fatinha. O grande desconforto do Vandir, durante toda a sua narrativa, foi a inconveniência do Pitico, o primeiro curioso a chegar ao local e o mais frustrado de todos com a desistência dele de pular de cima da torre, que, incansável e persistente, interrompia a confissão para gritar:
- Graaaande bundão!

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